Casa Nossa: artesanato e identidade cultural — entrevista a Felipa Almeida
Conversámos com Felipa Almeida sobre o seu processo curatorial para a Casa Nossa, em Reguengos de Monsaraz.
Partindo do convite do Chef José Avillez para integrar o projeto, explorámos a visão criativa por trás desta curadoria de artesanato, focada em preservar a identidade cultural local.
Como surgiu o convite do chef José Avillez para assumir a curadoria do artesanato da Casa Nossa? E o que distingue esta colaboração das anteriores, como o Cantinho do Avillez, o Belcanto ou o Bairro do Avillez?
Felipa Almeida: O chef José Avillez com quem eu já tinha colaborado muito no passado, pediu-me ajuda para encontrar peças antigas que complementassem a decoração do Studio Astolfi. Fui então à procura de figuras de Estremoz, moringues, cantis e outros objetos ligados ao uso da água — peças com história, profundamente enraizadas na cultura alentejana. Para além de estar a desenvolver a minha própria coleção de cerâmica, gosto muito de criar coleções e curadorias para outras pessoas e projetos. Por isso, esta colaboração foi uma verdadeira sorte — adorei o desafio que o chef José Avillez me lançou.
Qual foi a narrativa que quis transmitir através das peças escolhidas?
Felipa Almeida: A narrativa que quis transmitir foi, acima de tudo, evocar o Alentejo — a sua identidade, a sua memória e a sua riquíssima tradição de olaria. Quis que as peças escolhidas refletissem essa herança, vinda dos grandes centros de produção cerâmica da região, como Estremoz, Redondo e São Pedro do Corval, todos muito próximos da Casa Nossa. No fundo, o objetivo foi trazer ao projeto um pouco dessa alma alentejana, dar-lhe uma dimensão afetiva e enraizada na história e no saber-fazer local.

“Quando arquitetura, decoração e artesanato se enraízam na mesma geografia e falam a mesma linguagem, o resultado é sempre mais harmonioso, autêntico e humano.”
Pode descrever como é o processo prático da curadoria: como seleciona as peças, como define os materiais, as formas, as cores… e como as compatibiliza com o espaço arquitetónico?
Felipa Almeida: Neste caso, o processo de curadoria foi mesmo uma “caça” à peça ideal. Quis encontrar objetos que tivessem autenticidade e alma e foram muito poucas as peças contemporâneas que propus ao chef. A maior parte das que selecionei eram antiguidades e acabaram por se concentrar sobretudo na cerâmica, que é uma das grandes forças do artesanato alentejano. Além disso, o projeto do Studio Astolfi já tinha uma presença cromática muito marcada pela cor da terra, que é a tonalidade do barro e isso também orientou as escolhas. No fundo, o barro acabou por definir a paleta dominante e criar uma ligação natural entre as peças, o projeto de interiores e o lugar.
De que forma considera que o artesanato português aqui integrado dialoga com a arquitetura local ou tradicional da região onde a casa está situada?
Felipa Almeida: Mais do que falar de artesanato português, neste caso estamos a falar de artesanato alentejano. A olaria no Alentejo tem uma presença muito forte e isso deve-se também à própria geografia da região — a terra é rica em barro, e por isso este material sempre fez parte da vida e da arquitetura local. É um elemento profundamente orgânico e natural, que pertence à sua paisagem e identidade. Como todas as peças que escolhi são locais, o diálogo com a região e com a Casa Nossa acontece de forma também muito natural. Há uma harmonia quase instintiva entre as peças e o espaço.

“Mais do que uma tendência estética, acredito que o essencial é a relação que as pessoas estabelecem com os objetos que habitam o seu espaço.”
Como vê a ligação entre decoração (neste caso artesanato português) e arquitetura? Qual a importância em que ambos falem a mesma linguagem num projeto de habitação?
Felipa Almeida: Há sempre uma grande harmonia quando os materiais, a paleta cromática e a própria materialidade vêm do lugar onde nasce o projeto. Nem sempre é fácil conseguir isso, mas quando acontece, há uma linguagem comum e transversal e essa coerência traduz-se não só visualmente, mas também numa maior harmonia acústica, térmica e de iluminação natural.
Acredito que é fundamental começar qualquer projeto com uma boa pesquisa da região: compreender a paisagem, os modos de vida, a geografia e as suas lógicas. Só assim é possível pensar interiores que nascem do lugar e não que simplesmente ‘aterram’ sobre ele. Muitas vezes sinto que a arquitetura se impõe à paisagem, em vez de nascer dela — e, para mim, há uma sabedoria profunda na integração com o território, uma sabedoria que infelizmente se tem vindo a perder.
Tradicionalmente, construía-se de forma muito mais orgânica, em diálogo com a luz, com a eficiência térmica e com o modo de vida local. Essa relação com os elementos naturais é essencial para criar espaços que sejam realmente agradáveis, onde as pessoas se sintam bem. E o artesanato tem precisamente essa mesma lógica local e sensorial. Quando arquitetura, decoração e artesanato se enraízam na mesma geografia e falam a mesma linguagem, o resultado é sempre mais harmonioso, autêntico e humano.
Olhando para o futuro, que tendências ou mudanças antevê no papel do artesanato, da curadoria e da integração de peças singulares em projetos de habitação contemporânea?
Felipa Almeida: Espero que o futuro traga uma maior valorização e proximidade em relação ao artesanato e aos objetos que pertencem verdadeiramente às regiões de onde vêm. Mais do que uma tendência estética, acredito que o essencial é a relação que as pessoas estabelecem com os objetos que habitam o seu espaço. Num mundo cada vez mais uniformizado, digital e menos sensorial, espero que o futuro caminhe precisamente no sentido oposto: que volte a privilegiar o toque, a matéria e a natureza.
Muitos dos objetos que escolhi para a Casa Nossa, por exemplo, são peças antigas, que carregam em si a memória de uma região, dos hábitos e dos gestos do quotidiano. Eram objetos utilitários, que hoje já perderam essa função, mas continuam a guardar um pedaço da nossa história. Espero sinceramente que nunca se percam — porque são parte da nossa identidade cultural e representam uma forma de homenagem aos nossos antepassados e à vida que existia.
